Shiva Baby (2020)

Shiva Baby (2020), dir. Emma Seligman
Estrelando mundialmente com seu primeiro longa, a jovem diretora canadense Emma Seligman nos apresenta uma dinâmica divertidíssima e angustiante, tudo na mesma intensidade. Em Shiva Baby (2020), acompanhamos Danielle (Rachel Sennot) em um reencontro na sua antiga comunidade judaica. Na companhia dos seus pais, duas figuras que não sabem o significado de “limites”, ela se vê presa numa casa onde tudo parece estar em volta dela. Seus segredos encurralam ela mais ainda, pois ninguém naquele recinto sabe que Danielle é sugar baby de um cara bem sucedido em que ela usa a desculpa do dinheiro por estar em uma faculdade de direito e por morar sozinha.
Começamos o filme sabendo tanto quanto o seu sugar daddy, para depois descobrirmos que Danielle é, na verdade, sustentada pelos seus pais que gostam de divulgar isso para todos, sempre de uma forma não tão de propósito. Os dois garantem uma grande parte da comédia e da esquisitice do filme com suas personalidades tão inocentemente malucas e desconfortáveis, essas que não parecem se distinguir muito daquelas outras pessoas que participam do encontro judaico. Os personagens são caricatos ao redor de Danielle, que é uma jovem desconfiada, ninfomaníaca e mentirosa. Essas características se intensificam e se distribuem com a chegada de quatro personagens inesperados. A primeira é a presença da ex-namorada de Danielle, Maya, que mantém uma vida sucedida socialmente e profissionalmente. É interessante como o desenvolvimento das duas durante aquele reencontro nos diz muito sobre o passado. É por meio de um roteiro inteligentíssimo que Maya e Danielle se relacionavam às escondidas (não tão escondido assim, considerando que todos do lugar mantém os olhos nas duas esperando qualquer deslize) e que Maya sempre soube decifrar os segredos de Danielle, e não seria diferente agora. Acaba se tornando divertido ver Danielle fugindo ao máximo de Maya, mesmo que ainda sinta algo por ela, porém o medo de ser descoberta é maior.

Maya (Molly Gordon) e Danielle (Rachel Sennott)
Os outros três personagens que aparecem para piorar toda a situação são o seu sugar daddy e sua respectiva esposa, com seu bebê de meses no braço. Antes de continuar aqui, devo relembrar: as coisas só pioram com o decorrer do filme. Todo elemento que surge tem um papel importante em atazanar a mente da protagonista e, de forma bem feita, nos atazana também. Pense em algo do tipo Uncut Gems, porém com menos drama gângster e mais comédia sutil. Com a chegada do homem para quem ela mentia aquele tempo todo e sua possivelmente adversária, entramos em um jogo de desespero cómico. Principalmente quando o sugar daddy vai descobrindo aos poucos quem é Danielle e, junto com ela, tentam desenrolar uma história falsa sobre como se conheceram para justificar o susto bem visível que eles tiveram ao se esbarrar no encontro. Lembre-se, Maya ainda está de olho tentando decifrar tudo.
Essa intensidade e tensão que envolve Danielle, Maya e o sugar daddy permanece sem competição alguma. A curiosidade é maior que qualquer coisa, menos da sutileza que a bissexualidade é representada aqui. Acho importante mencionar isso, porque Emma trabalha sublimemente esse ponto. Já é difícil encontrar uma representatividade coesa da bissexualidade dentro do cinema, e fico muito feliz ao assistir uma que não perpetua o estereótipo de threesome ou de conflito em quem ela vai escolher, se ela precisa realmente escolher. O desenrolar do plot segue perfeitamente sem precisar de pontos sexualizados ao redor de uma mulher bissexual.

Kim (Dianna Agron) e Max/Sugar daddy (Danny Deferrari)
Shiva Baby (2020) conseguiu assegurar a comédia do começo até o fim. O seu roteiro sutilmente elaborado trabalha junto com uma montagem rítmica incrível, que brinca com cortes rápidos, falas interrompidas e um jogo incrível de câmera, luz e som. O uso da música clássica nas situações de incômodo provocam uma sensação cômica que me lembra séries como The Office e Parks and Recreation. É um tipo de comédia que cativa sem precisar de caricaturas de comédia pastelão. Emma Seligman sabe como utilizar as desavenças e as surpresas de forma muito perspicaz que, além de todos esses elementos citados acima, também se dá crédito ao elenco. A esposa, interpretada pela belíssima Dianna Agron, foi um grande acerto justamente por ela ter uma resting bitch face bem natural que só acrescenta a atuação dela. A protagonista, Rachel Sennot, já trabalhou com Emma no curta que inspirou o longa. Foi um acerto bem direto, considerando que a mesma já tinha uma base bem estruturada de como a personagem é. Palmas para os pais também, porque a vontade de morrer foi grande caso eu estivesse no lugar da Danielle.
No final das contas, a “piada de bar” que a diretora Emma Seligman queria transformar em filme aconteceu de forma bem sucedida. Em entrevista para o Mubi, ela diz que demorou para achar o tom certo do longa por ser situado em um só lugar e em um dia só. Independente da demora, finalmente fomos apresentados a uma obra de arte da comédia que nos diverte, nos faz querer chorar, nos faz querer gritar e surtar. Tudo isso em poucos minutos e em um eterno loop. Indico sem pensar duas vezes.
Filme disponível na plataforma MUBI.
9/10
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