60 anos depois, a violência continua

O que uma linda cenografia, com uma direção de arte impecável, uma fotografia elegante e uma atuação de prender o fôlego diz sobre um filme? Nada, se o ponto mais importante for uma aberração. Esse foi o caso de Blonde, dirigido e adaptado para linguagem cinematográfica por Andrew Dominik e escrito originalmente pela autora Joyce Carol Oates. A história (fictícia, devo sempre lembrar esse ponto que vai ser importante para construção dessa crítica) reimagina a vida da atriz Marilyn Monroe e transforma a vida dela em mais um inferno, mesmo depois de 60 anos do seu falecimento.
Antes de falar dos grandes problemas que um filme de quase 3h acarreta para vida de Marilyn, queria deixar alguns pontos aqui que, se eu ignorar, estarei sendo hipócrita. O filme carrega uma estética que pode ser considerada original, dado ao fato que Dominik muda o aspecto de tela de acordo com a tensão da cena. Indo de um 3:4 para um full screen, variando de repente para um Cinemascope faz com que a proporção da tela se torne um recurso narrativo interessante e que poderia ser bem mais utilizado se casado com uma história mais respeitosa. Além das transições muitíssimo bem feitas, a atuação da Ana de Armas também se encaixa nesse ponto de vista, uma vez que ninguém pode negar que sua interpretação é viciante de se observar. Até certo ponto.
Voltando para o ponto citado no primeiro parágrafo, Blonde é uma história fictícia que utiliza um nome extremamente conhecido: Marilyn Monroe. Aliás, não só utiliza o seu nome, mas também utiliza o seu corpo e toda a narrativa que a indústria insiste em tornar como foco da vida da atriz considerada o maior sex symbol da era de ouro de Hollywood. Não é difícil encontrar um, dois, três documentários sobre a Marilyn em que o tópico principal é todo em volta dela sofrendo, sendo abusada e observada apenas pelos olhos dos homens, o famoso e insistente male gaze.
60 anos depois do falecimento de Marilyn, a objetificação do seu corpo ainda é o que mais se remete a ela. E jamais como forma de denúncia! Sempre com uma máscara de alerta, mas que por trás existe um homem obcecado em mostrar cada centímetro do seu corpo e descrever detalhadamente os abusos sofridos, sempre como uma forma de divertimento descarado de “arte” e “homenagem”. Esses pontos conseguem ser observados nos tais ditos documentários, em que a premissa é sempre retratar o que se passou na realidade. Mas isso acontece em uma obra que é considerada fictícia, mesmo se utilizando de um personagem real?
A resposta é sim, e é isso que acontece com Blonde. Tanto no livro e no filme, ambos autores decidem adicionar mais sofrimento em volta da Marilyn, em um lugar que poderia homenagear ela de diversas formas saudáveis. Primeiramente no livro, em que não consegui finalizar por não gostar do processo narrativo que foi cansativo, bagunçado e com um toque poético que jamais se adequou com o nível de exposição proposto. Inocentemente acreditei que a escrita seria melhor adaptada para o cinema, uma vez que existem recursos que podem melhorar o desenvolvimento da história. Pois bem, piorou. Piorou porque o filme abriu portas para uma exposição mais insensível, mais pesada e forte. Piorou porque, nas mãos do Andrew Dominik, a Marilyn ganhou mais um filme em que ela é vista apenas por ser a Marilyn Monroe da podre indústria - a grandiosíssima atriz que conseguiu seus papéis por passar pelos famosos testes de sofás, e nunca por seu talento e dedicação. Sempre pela sua devoção por homens, e por suas dominações controladas nela.
A ficção, que poderia ser muito bem adaptada diante de um bom senso, é repleta de cenas de nudez, de sexo e de objectivação extremamente desnecessárias, coerentes apenas para uma masturbação pública do diretor. Quase como um pornô repleto de torturas, Blonde (2022) se torna tudo aquilo que vai contra a Marilyn. É inevitável comparar com a vida real, uma vez que estão degradando uma mulher que lutou por todo seu período curto de vida para ter uma visibilidade benigna diante das câmeras. O que se torna ainda mais revoltante ao saber que a maior parte dos acontecimentos foram inventados, quase (se não, obrigatoriamente) colocados na narrativa para se tornar ainda mais sofrido e torturante, como se a realidade por si só não bastasse. Como se a violência que ela passou fosse apenas um fator criativo para se imaginar além daquilo. Se um dia Andrew Dominik decidiu fazer um filme para homenagear e prestigiar a vida e carreira da Marilyn, ele não chegou nem perto disso com Blonde (2022). Muito pelo contrário, o filme parece mais um ataque à sua vida. Fã ou hater? Definitivamente a segunda opção.
E puta que pariu, a cena de um feto falando: “mamãe, por que me mataste?”? Um plano detalhe da personagem fazendo um boquete e rezando para não vomitar? Não só essas duas cenas, como do começo até o fim você se pergunta se deve continuar assistindo o filme. Nem mesmo a atuação impecável da Ana de Armas te prende, o que mostra a aberração que o filme se transforma. É nojento, ridículo, doloroso e extremamente revoltante.
Sinceramente, a mulher não tem paz nem depois de morta.
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