"Oh, my. You have attractive hands, lovely long slender fingers like a thoroughbred."

When Ladies Meet (1941), dir. Harry Beaumont
When Ladies Meet (1941) fala sobre Mary, uma escritora que está finalizando seu livro sobre um triângulo amoroso. Ao ser apresentada para seu editor, acaba se apaixonando por ele, mas ela mal esperava que a esposa dele, Claire, fosse tão encantadora. Jimmy, seu melhor amigo, também acha a rival da sua amiga um tanto quanto interessante. Ele, que é apaixonado por Mary, decide se envolver com Claire e apresentá-la para Mary sem que Claire soubesse que a outra mulher estava na mente do mesmo homem que amava, isso tudo com a intenção que as duas mulheres não se dessem muito bem ao ponto de Mary desistir do caso. Bom, não queria começar esse texto com spoiler, mas aqui vai um: a relação entre as duas mulheres fica bem longe de ser uma relação de ódio. Muito pelo contrário, viu? Já começo dizendo: se esse filme fosse feito fora de uma época dominada pelo Código Hays (aquele código de Hollywood que impedia qualquer ato que não fosse heterossexual nas telinhas de cinema, além de várias outras coisitas consideradas “imorais” naquela época), o drama estrelado por Joan Crawford e Greer Garson entraria no top 10 de melhores filmes lésbicos já feitos.
Vou tentar apresentar nesse texto o mesmo conceito que o filme tem, que é sustentar os primeiros 50 minutos apenas com a ansiedade que ele causa nos espectadores para saber como vai ser o encontro dessas duas grandes estrelas do cinema hollywoodiano. A princípio, conhecemos Mary Howard (Joan Crawford), uma escritora renomada que é aclamada por seu talento e beleza. Uma mulher multitarefas que consegue ter sua carreira profissional e também consegue manter seu papel doméstico, algo que os nossos queridos filmes da Old Hollywood adora permear. De qualquer forma, Mary ainda é uma mulher solteira que encanta todos que passam ao seu lado. Isso inclui seu amigo Jimmy, que se vê quase de joelhos para aquela mulher que não tá nem aí para ele. Apesar de todas suas tentativas de fazê-la se apaixonar, Jimmy se revolta ao ver que aquele amor que poderia ser direcionado para ele está, na verdade, direcionado para o editor do último livro de Mary. E para piorar a situação, ele é casado. O que torna tudo mais irônico ainda, considerando que esse livro é sobre um triângulo amoroso.
Fazendo sua pesquisa de campo cada vez mais de forma literal, Mary tenta lutar contra esse seu novo amor quando começa a saber sobre a esposa dele. A qualquer momento e em qualquer situação, Mary sempre é interrompida com perguntas do tipo: “Você a conhece? Dizem que ela é adorável e belíssima!” Não foram uma ou duas vezes que essas informações chegaram nela, o que tornou tudo cada vez mais curioso para quem estava assistindo. Até metade do filme, não vimos nenhum relance de quem poderia ser essa interessantíssima corna (perdão, mas ela era). Óbvio que para quem tinha pesquisado antes de assistir, sabia que era ninguém mais ninguém menos que a belíssima Greer Garson. Para mim, que sabia disso, toda essa situação de “quem é ela?” só me deixava mais animada para o encontro das duas. Isso, o medo da personagem da Joan Crawford e Jimmy, o único homem interessante desse filme que nos oferecia algo além de caretas “sensuais” (isso é bem raro nesses filmes!), me prenderam no primeiro longo ato do filme.
Na outra metade, é bem óbvio que os holofotes focariam apenas nas duas mulheres. E assim foi. Todos os outros personagens se tornaram coadjuvantes no exato momento em que finalmente conhecemos Claire Woodruff. Esse foi meu primeiro contato com a Greer Garson e posso dizer que tô completamente comprada. Sua atuação é contagiante e encantadora. O modo em que ela interpreta Claire faz jus a todos os elogios que recebeu no filme. E quando uma atuação impecável como a da Garson se encontra com outra atuação impecável que foi a da Crawford, o filme brilha intensamente. A dinâmica das duas é uma coisa incrível de se assistir e o contexto dos atos adicionou um toque extraordinário para tudo que estava rolando ali na tela.
A premissa era que Mary e Claire se odiassem, mesmo que Claire não soubesse que aquela mulher na sua frente estava saindo com seu marido. Mary, que sabia quem era Claire, ficava ressentida, com um pé para trás. Mas ela não consegue se segurar quando Claire apresenta sua personalidade leve e extrovertida, com seu jeito simpático que cativa a todos, inclusive Mary. As duas mulheres se aproximam naturalmente a princípio e isso só aumenta quando as duas passam a noite juntas numa casa junto com Jimmy e os anfitriões do jantar. Mary e Claire cantam juntas no piano e passam a noite conversando e interagindo. Interações que chegam a ser "explícitas" demais, que logo transformam aquela conversa “amigável” para um ponta-pé de segundas intenções. Afinal, quem que diz que as mãos da sua amiga são atraentes com belos longos finos dedos? É, na minha opinião, uma das cenas mais gays que a Old Hollywood poderia ter.

Claire Woodruff (Greer Garson) e Mary Howard (Joan Crawford)
Cenas que são até comuns em muitos filmes dessa época. Como todos nós sabemos, era meio que impossível ter uma (boa) representatividade lésbica em filmes hollywoodianos. Entre os anos 30 até o final dos anos 60, a censura do Código Hays tomava conta dos filmes de Hollywood. Will H. Hays, o “czar” da indústria cinematográfica, elaborou quais conteúdos podiam ou não podiam aparecer nos filmes dessa época, além de outros que deveriam ter um cuidado especial para conseguir ser aceito por essa censura. Apesar de não existir um tópico específico para homossexuais e lésbicas, isso se encaixava no tópico 4 dedicado para “insinuação de perversão sexual”. Logo abaixo, tem o tópico 5 que proíbe a “escravidão de brancos”. O código Hays foi aplicado à risca até 1956, mas o início da TV e o sucesso dos filmes estrangeiros fez com que ele fosse aos poucos derrubado. Em 1968, com o impacto da contracultura, o código foi substituído pelo sistema de classificação indicativa.
Sabendo disso, a gente já adivinha o que rolou em seguida, né? Digo no filme. Sem dar spoilers novamente, mas já dando: elas não ficaram juntas. Era o esperado, mas posso dizer tranquilamente que o filme teria sido mil vezes melhor se isso tivesse acontecido. Não digo apenas por querer ver Joan Crawford e Greer Garson juntas (não vou mentir, né), mas porque a história ficaria mais interessante e também fecharia perfeitamente com a premissa que foi dada desde o começo. Não existiria uma comédia romântica melhor que a amante e a esposa terminando juntas e deixando o marido feio de lado. Mas aparentemente isso é pedir muito quando o assunto são filmes da Era de Ouro de Hollywood.
Deixando meus desejos de lado, o filme vale a pena. A comédia é balanceada e vem mais dos personagens caricatos e extravagantes nos seus atos, mas mesmo que não nos traga uma grande gargalhada, ainda assim, é um filme que você se diverte assistindo. Boa parte vem desse interesse para conhecer a tão bem falada personagem, e o processo antes disso acontecer é bem construído que não faz você desistir no meio do caminho. Apesar que em alguns momentos você tem que se prender nas atrizes principais para continuar assistindo, já que a narrativa do início pode chegar a ser um pouco cansativa pela insistência e demora para o que queremos que aconteça realmente chegue a acontecer. Não é um dos meus filmes favoritos dessa época, mas ainda é um filme interessante e que eu recomendo caso tenha interesse em conhecer a grandiosidade das estrelas hollywoodianas que brilham em sincronia.
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