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Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce 1080 Bruxelles

Foto do escritor: Samara Torres
Samara Torres
29 de jun. de 2021
3 min de leitura

Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce 1080 Bruxelles (1974), dir. Chantal Akerman


Você já se perguntou o por quê da sua rotina ser como ela é? Essa rotina é porque você quer que ela seja assim ou porque algo ou alguém interferiu em algo e resultou nisso? Esses foram alguns questionamentos que tive enquanto assista o longo Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce 1080 Bruxelles. Longo de duração mesmo, porque o filme da francesa Chantal Akerman tem uma duração de 3h41min, o que pode não parecer muito ou pode ser até comum considerando que grandes clássicos tem a mesma duração, mas posso dizer por mim mesma que isso não me atrai muito não. Mas tudo pela Akerman, né?


Jeanne Dielman acompanha uma mulher viúva e dona de casa que tem uma rotina bem restrita e bem planejada, sem ter um intervalo entre suas tarefas para que ocorra um breve imprevisto que quebrasse a sequência dos atos. Algo que parece até entediante, e consegue ser, porque nas próximas três horas iremos acompanhar silenciosamente essa rotina como um ser inexistente dentro daquela casa extremamente organizada. Mesmo assim, existem momentos que você não se cansa porque a curiosidade é maior do que tudo. Existe uma tarefa específica na sua semana, que é sua prostituição, que não se encaixa com a "coerência" da rotina doméstica. Esse é um momento que se destaca e que fica marcado na sua mente até o final, graças a naturalidade que Akerman produz na narrativa e que resulta em um motivo até grande para fazer você continuar naquela jornada.


A câmera parada em uma distância que captura o ambiente todo nos deixa presos junto com Jeanne, que não para por um segundo quieta no canto, apenas quando vai dormir. O filme já começa com ela na ativa e já na metade do seu dia, sem nenhuma introdução para nos situar naquele ambiente. Mas isso é desnecessário já que a misé-en-scene de Akerman é perfeitamente bem elaborada, dispensando por completo uma apresentação tradicional ou comum, aliás, essas duas coisas ficam longe da análise sobre esse filme.




O filme é dividido em apenas três dias da rotina de Jeanne, mas são o suficiente para que adentrássemos naquela vida que parece ter se repetido desde a morte do seu marido, há 7 anos. Novamente, é cansativo ficar olhando uma mulher lavando pratos ou descascando batatas por minutos ininterruptos, mas por você estar tão imerso nessa chatice você consegue perceber uma mínima mudança de hábito, expressão ou método de realizar uma tarefa específica. E isso acontece de uma forma muito bruta, que te faz abrir os olhos quando quase estava pegando no sono, uma técnica muito boa para sustentar aqueles que passaram metade do filme questionando sua própria existência. Mas, assim como qualquer situação ocorrente da narrativa, você tem que parar para analisar o motivo daquela mudança. Eu não tive uma resposta imediata, na verdade procuro por ela até depois de terminar o filme, mas existe uma motivação muito óbvia presente desde o começo da história que te faz entender a quebra de rotina. E isso só é possível de ser visto devido as cansativas, repetitivas e longas sequências.


Jeanne Dielman (Delphine Seyrig)


Não é um filme fácil e não foi uma jornada muito tranquila para mim por causa da duração (é quase que impossível passar 3h em frente de uma tela sem ninguém me interromper em casa, sofro), mas no final foi uma experiência agradável. Ler as discussões e análises sobre o filme depois de ter terminado foi algo bem impactante, considerando que tantos significados conseguiram sair de uma mulher em seu dia-a-dia. Por mais que alguns pontos não tenham nem passado por minha cabeça enquanto estava assistindo, portanto eles não influenciam na minha nota final, eles continuam ainda sendo algo bacana de ser analisado e discutido. Deixo aqui em baixo algumas reviews do site Letterboxd que gostei bastante e que rendem discussões bem interessantes.



7,5/10


 
 
 

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