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"I feel as if I’m losing all my leaves. The branches and the wind and the rain."

Foto do escritor: Samara Torres
Samara Torres
28 de mar. de 2021
4 min de leitura

Atualizado: 28 de mar. de 2021

Sony decide desperdiçar em uma época em que um filme bom é um dos poucos refúgios da sociedade.



The Father (2020), dir. Florian Zeller


Diante de uma temporada extremamente morna dentro de uma pandemia que desanima até os maiores amantes de uma época como essa (falo por experiência própria), nos sustentamos na lógica que os estúdios iriam se esforçar para divulgar seus filmes mais ainda que antigamente, nos modos presenciais e carnais. Bom, de certa forma isso aconteceu. A Searchlight está fazendo um grande trabalho com Nomadland, assim como a Focus Feature e a Universal está fazendo com Promising Young Woman e a A24 com Minari. Mais do que nunca, hoje a distribuição é um fator extremamente importante para cativar o telespectador e, olhando para o lado mais... "hollywoodiano", o votante da academia. Parece que depois de perceber que eles não conseguem ser o foco em uma categoria que não seja de som, a Sony largou a mão de uma das maiores oportunidades de destaque nessa temporada de premiação.

The Father é um longa-metragem dirigido e adaptado por Florian Zeller e protagonizado pelo grande Anthony Hopkins e a grande Olivia Colman, com participações de nomes importantes dentro da cultura britânica como o Mark Gatiss e Imogen Poots. O filme segue a confusão mental que Anthony, xará do seu intérprete, luta todos os dias. Com uma ajuda não requerida da sua filha Anne, ele tenta seguir normalmente sua rotina que insiste em ser interrompida pelos resquícios da idade. O filme é adaptado de uma peça que o próprio Florian fez em 2012 e que foi vencedora do prêmio Mòliere de melhor peça.

Devo dizer que eu já tinha uma grande carga de expectativa antes de dar play nesse filme. A partir do momento que eu soube que Anthony Hopkins e Olivia Colman iriam atuar juntos, eu sabia que a pessoa tinha que se esforçar bastante para tornar essa dinâmica ruim ou/e tediosa. E depois de meses e meses esperando um meio adequado para assistir, o coração finalmente ficou leve em perceber que eu estava certa. The Father conseguiu sustentar aquilo que um dia propôs. Em uma sequência de fatos confusos, fora de uma linha de tempo tradicional, você consegue adentrar dentro da mente de Anthony. Sua luta diária se torna sua luta também em tentar organizar os fatos, os acontecimentos, os personagens e a realidade em geral.


Muitos podem chegar e dizer que essa confusão lembra a confusão que encontramos no universo de David Lynch e até mesmo no último filme de Charlie Kauffman, I'm Thinking of Ending Things. Não consigo achar nenhuma semelhança a não ser o intuito de confundir o telespectador, mas mesmo assim são confusões diferentes, em universos diferentes que causam sensações diferentes. Enquanto os dois citados acima causam uma sensação de afobamento, de agonia e de desespero, o primeiro longa-metragem do diretor francês Florian Zeller preza por uma empatia profunda, que alcança lados dentro de si que você nunca imaginaria sentir quando ouve que o filme é basicamente um velho sendo ingrato e arrogante com a única pessoa que faz de tudo para seu bem-estar. O show de atuação de Olivia Colman e Anthony Hopkins nos leva a uma série de questões. O que você faria se estivesse em qualquer um dos lugares? Como você reagiria se você estivesse fazendo de tudo para uma pessoa ir e te machucar com palavras espinhosas e sangrentas? Como você reagiria se você não controlasse essas palavras e machucasse inconscientemente a única pessoa que nunca largou sua mão depois de várias tragédias? Essas perguntas chegam a serem até retóricas, uma vez que você só consegue respondê-las quando você as vive. Ao mesmo tempo, Florian Zeller consegue te colocar nesses papéis durante os breves e bem contados 97 minutos. Seja pela edição inteligente, as falas marcantes e bem-interpretadas, a trilha sonora suave e ainda assim profunda, ou pela presença imprescindível do elenco. Diante tudo isso, volto ao primeiro parágrafo que escrevi e de onde surge toda minha indignação ao redor desse filme. A Sony Pictures Classics, distribuidora do filme, parece ter sumido do mapa quando o assunto é o seu único papel aqui. Já presenciamos diversos casos em que os filmes eram tão ruins mas que a distribuição era tão bem feita que isso não o impediu de apanhar diversos prêmios, além de uma belíssima visibilidade. Isso está acontecendo nessa temporada de premiação. Mas, quais são as chances de uma produtora abrir mão de um filme que contém tudo para ser um dos favoritos da temporada?

Elenco consagrado. Roteiro bem feito, com uma adaptação de dar água na boca. Uma edição perspicaz e sutil. Tudo isso para o filme cair nas mãos de uma das piores produtoras e distribuidoras da época. É extremamente triste e revoltante saber que Anthony Hopkins e Olivia Colman estão sendo desperdiçados dessa forma, enquanto atuações meia-boca (falo isso com meu coração ardendo de dor, considerando que a atriz destaque dessa temporada é uma das minhas atrizes favoritas da vida, e está ganhando destaque com um filme ruim) recebem os holofotes pois, bem, todo mundo sabe que o que faz o filme ser bom em Hollywood é o quanto de dinheiro está sendo investido nele. Não falo na pré e nem durante a produção, mas sim na pós-produção. The Father não conseguiu tirar o primeiro lugar de Nomadland, mas aparece logo em seguida dele. Pelo menos meu favorito da temporada está sendo bem tratado, do jeito que The Father merecia também. De qualquer forma, é bom finalmente ver a dinâmica impecável que o Hopkins e a Colman nos apresentaram. Também está sendo divertido ver o próprio Anthony Hopkins ser responsável pela divulgação e distribuição do filme. Um vídeo quinzenal dele fazendo alguma coisa nunca é demais. Serve como remédio para o coração e, acredito eu, que ajudou a conseguir as seis indicações ao Oscar. Infelizmente, sabemos como isso vai acabar. 9,5/10




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