"A terra é do homem, num é de Deus nem do Diabo."
Atualizado: 28 de mar. de 2021
Glauber Rocha retrata em Deus e o Diabo na Terra do Sol o sofrimento no sertão e do sertão. A seca, a esperança, a pobreza, a violência e a miséria são situações que foram conceituadas através de uma fotografia bruta. Uma das características do Cinema Novo apresenta a câmera na mão e a ideia na cabeça, o que abre espaço para improvisações que vieram a calhar no momento da gravação. A angústia dos personagens são acentuadas com o preto e branco, além da montagem de cenas. Os cortes rápidos, a câmera em movimento em cenas de emoção e o toque documental de Rocha torna o filme um dos mais importantes do Cinema Novo.

O título revela o desenrolamento do longa: os conceitos de Deus e os conceitos do Diabo no sertão. Ao lado do messianismo, a Igreja aparece como foco, sendo aqueles que mostram a esperança para os fiéis: o sertão ainda vai virar mar, e quando isso acontecer, os pobres irão reinar na terra de Deus e os ricos irão queimar no inferno. A hipocrisia aparece quando a própria Igreja não segue o que diz. É a Igreja que contrata um matador de aluguel, Antônio das Mortes, além de aproveitarem da fragilidade dos fiéis, que seguem um líder violento que causa sofrimento e até mesmo mortes em nome da fé que tanto acredita. O Diabo é o cangaço, como por exemplo Corisco, cangaceiro do lado de Lampião. O Diabo Louro, como era apelidado, procurava a vingança pela morte do seu líder de cangaço.
No meio da confusão entre o bom e ruim, aparece Manuel. Ele, que seguia os conceitos do bem de Deus, se vê na necessidade de lutar para sobreviver. Manuel, que antes era de Deus, vira do Diabo quando assassinou o coronel que tanto abusava dos trabalhos do sertanejo. O caminho de Manuel mostra o questionamento do filme: seria Manuel realmente o diabo, por matar aquele que tanto o desrespeita, maltrata? Qual o conceito do bem através de Deus se a própria Igreja é quem mata? Acima de Deus e do Diabo na terra do sol, existe o homem. É ele quem dá significado a tudo no mundo, portanto é ele quem cria sua personalidade acima do messianismo e do cangaço. É a realidade do homem que lidera os caminhos e é através dos seus próprios conceitos que virá o entendimento da justiça, do bem e do mal. Isso é relatado na música Perseguição/Sertão Vai Virar Mar, quando ressona: “Tá contada a minha estória / Verdade e imaginação / Espero que o sinhô / Tenha tirado uma lição / Que assim mal dividido / Esse mundo anda errado / Que a terra é do homem / Num é de Deus nem do Diabo”. Ainda, a trilha sonora produzida por Glauber Rocha adiciona mais um toque que torna o filme mais especial. Seus versos se encaixam perfeitamente nas cenas, como por exemplo a cena final em que Antônio das Mortes mata Corisco. Ao fundo da perseguição e dos tiros, os gritos de Antônio que ecoava “Se entrega, Corisco!” se misturavam com os níveis de agitação da música. Além dos sons com versos, os efeitos transportam a tensão, a angústia e o desespero da cena para quem assiste. Deus e o Diabo na Terra do Sol é uma obra que mostra os dois lados da moeda: o bem e o mal. Ainda, nos faz questionar o que é bem e o que é o mal. É um longa feito há mais de cinco décadas mas que ainda serve para o olhar de hoje. O sertão ainda não virou mar e ainda sofremos pela hipocrisia. 8/10
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