"Does the soul exist in modern society?"
Atualizado: 28 de mar. de 2021
Em 1960, o cenário do cinema francês se voltava para a época da Nouvelle Vague. A nova onda propôs uma manifestação cinematográfica com mais liberdade, e isso é explicado muito bem no filme do diretor francês Godard. Ele, aos seus 30 anos, apresenta seu primeiro longa-metragem: Acossado. O filme tem foco em dois personagens principais: Michel, um bandido que passa as horas do filme sendo um foragido da polícia, e Patrícia, uma jornalista americana que acaba presa dentro das suas resoluções amorosas por Michel.

O filme, além de gritar todas suas características a la Nouvelle Vague, acaba se tornando uma apresentação da filmografia completa de Godard. Com sua montagem composta de cortes rápidos em momentos de ação, como a cena inicial de Michel roubando um carro, e, em contraposto, cenas em sequência em momentos profundos, Acossado vira uma arte de pura liberdade. A linearidade da história acaba sendo um pouco confusa pelo excesso de cortes, seja de falas ou de cenas, mas acaba dando um toque especial para o longa. Um dos motivos de achar o cinema tão fascinante é que cada espectador terá uma visão diferente sobre a sétima arte. Pode ter pontos semelhantes, porém nunca por completo. Godard apresenta a liberdade através de imagens, deixando aquele que assiste juntar as pontas por conta própria. Alguns podem dizer que é desleixo, ou preguiça, mas prefiro olhar de forma menos racional: é mais curioso não ter a certeza de algo.
A liberdade continua quando se trata das falas dos personagens. Dando o passe para tornar as conversas mais naturais, o diretor deixou a improvisação em cima da mesa. Uma das características mais importantes que gosto de destacar quando falo do Godard é o percorrimento que temos com os personagens durante uma conversa, que a princípio não tem frases muito complexas, muito cinematográficas. Um exemplo disso são os aproximados 30 minutos de foco entre a relação de Michel e Patrícia. No quarto, eles conversam sobre o momento: sexo (pela parte de Michel), paciência (pela parte de Patrícia) e eles mesmos. Nessa conversa, nos aprofundamos dentro dos personagens em relação a si mesmos ou ao outro.
Patrícia grita insegurança e medo ao imaginar um relacionamento com Michel, que por sua vez grita segurança (e arrogância). O que destaca Patrícia é a sua força e, como ela mesma diz, sua independência. O medo aparece quando ela imagina ter um homem ao seu lado, ameaçando sua forma independente de ser. “Você disse que tenho medo. Sim, tenho medo porque quero que me ame, mas ao mesmo tempo já não quero que me ame. Sabe, sou muito independente.” A continuidade da conversa entre os dois durante 30 minutos prende sua atenção e gera o questionamento e a curiosidade sobre os sentimentos dos personagens, peça chave nas obras de Godard. Os seus personagens e os tópicos são semelhantes dentro de sua vida cinematográfica, podemos lembrar de O Demônio das Onze Horas, Uma Mulher é Uma Mulher e Masculino-Feminino em que são diversas vezes que assuntos profundos, questionamentos reflexivos e frases poéticas tem aparição. São apenas três exemplos de centenas de trabalhos.
Godard trabalha com a confusão dentro de Acossado: a confusão da vida, a confusão de sentimentos e a confusão da linearidade. É o que torna, para mim, uma bela obra que instiga os dois lados do cérebro. Aos seus 88 anos, Godard desenvolveu seu mais novo trabalho que explica as funções do espaço e tempo dentro do cinema. Isso mostra como o método marca sua carreira. A brincadeira com as palavras simples, porém profundas, além do encaixe perfeito (há quem goste, há quem odeie) de cortes rápidos e aleatórios transforma o cinema em um instrumento de imaginação, mais do que a ficção nos oferece. 9/10
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