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Uma surpresa bagunçada: O Oscar pandêmico

Foto do escritor: Samara Torres
Samara Torres
27 de abr. de 2021
7 min de leitura

Quem assistiu a 93ª cerimônia do Oscar que aconteceu no último domingo (25), percebeu que rolou muitas modificações. Se alguém estivesse passando os canais procurando a transmissão, passaria direto sem nem perceber que aquilo que estava passando na TV era realmente a famosa premiação de Hollywood. Diante de tantas mudanças no mundo devido a pandemia, é óbvio que isso iria afetar como que tudo ia rolar. Esse ano não tivemos a famosa aglomeração no tapete vermelho com os fãs quase pulando da arquibancada e os repórteres colados uns aos outros desesperados por uma breve conversa com Brad Pitt. O teatro Dolby deixou de ser o único palco, dividido agora entre a Union Station, estação de trem localizada em Los Angeles, e entre palcos espalhados pelo mundo.

É inegável que, mesmo que todas as premiações desta temporada também passaram por modificações, todas lutaram para manter o conceito dos momentos presenciais, mas acabaram dando de cara com um evento monótono com webcams gravando apenas o rosto inexpressivo de uma pessoa que com certeza estava tentando lidar com o delay da sua internet. O Oscar não queria que isso acontecesse novamente. Ao mesmo tempo, a produção fez outras modificações - dessa vez, técnicas - que definitivamente não contribuíram com a audiência da premiação que a cada ano só diminui.



Emerald Fennel ganha em Melhor Roteiro Original por Promising Young Woman. Foto: Reprodução



O diretor Steven Soderbergh, aquele que dirigiu Onze Homens e Um Segredo (2001) e Contágio (2011), filme que ressurgiu durante essa pandemia, foi o responsável pela organização do Oscar desse ano. A mudança já foi vista bem a princípio. O formato e a câmera aparecem diferentes, além de uma iluminação baixa devido, acredito eu, a localização. Pelo palco principal ter sido na estação de trem, obviamente o suporte de luz seria diferente que a de um palco de teatro. De qualquer forma, a junção dessas três modificações já deu uma nova cara ao Oscar. Com quase três horas e meia de evento, esse ano não tivemos a música interrompendo o discurso dos vencedores, o que deixou a maioria bem confortável para contar sua história de vida até aquele momento. Um aspecto que cansou bastante, mas caso você estivesse torcendo para quem ganhou, acabou sendo um suspiro de felicidade e alívio já que os intervalos entre as anunciações foram bem insuportáveis.

Com direito a um nível de comédia a la Critics Choice Awards, nos deparamos até com a Glenn Close participando de uma trivia aleatória que resultou nela rebolando no final(?). Acho que todos ficaram confusos nesse momento. Esses intervalos pareciam demorar cada vez mais, escapando do tédio apenas em um ponto que gostei bastante, que foi a apresentação dos indicados. Os apresentadores falaram pequenas biografias, dando uma visão geral sobre todos aqueles que estavam indicados. Foi um ponto positivo, no meio de todos os outros negativos, mas nada que se destacasse diante a maior mudança: a sequência louca e desorganizada das categorias.

Estamos acostumados com as quatro categorias principais fechando a noite, que são: melhor diretor, melhor atriz, melhor ator e melhor filme. Dessa vez, melhor diretor foi no bem no começo. Eu pisquei e o Bong Joon-ho anunciava que Chloé Zhao já estava ganhando sua primeira de duas estatuetas da noite. Foi lindo, mas sem o nervosismo bom que a premiação nos dá. A de melhor filme, que é a mais esperada da noite, é sempre usada como uma finalização de chave de ouro (tirando anos como o de 2019. TW: Green Book.), mas por algum motivo, o Soderbergh decidiu finalizar com a categoria de melhor ator. Certeza que passou na sua cabeça que iria rolar uma homenagem para o ator Chadwick Boseman, indicado por sua atuação em A Voz Suprema do Blues. Chadwick faleceu em agosto de 2020 e desde então recebe homenagens e prêmios póstumos por seu papel sofrido e extremamente talentoso.

Soderbergh tentou pegar esse gancho, talvez para compensar o In Memoriam desrespeitoso que foi totalmente apressado com uma música animada de fundo, mas deu de cara com um Joaquin Phoenix desanimado apresentando a categoria e com o Anthony Hopkins finalmente levando a estatueta de ouro. Aliás, o Anthony nem foi para premiação. Era cerca de 3 horas da manhã no Reino Unido, e ele com certeza deu prioridade para o que lhe parecia melhor. Ninguém imaginava que ele iria ganhar, principalmente ele e nem o Soderbergh. E foi assim que a premiação acabou. Vazia. Não de pessoas, pois a estação de trem estava lotada, mas de conteúdo e forças para continuar assistindo.



Anthony Hopkins agradece pela sua vitória em Melhor Ator por Meu Pai. Vídeo: Instagram



Esse Oscar foi muito diferente. Mesmo por ter finalizado dessa forma tão medíocre, os resultados de Melhor Atriz e Melhor Ator foram duas grandes surpresas. Além da vitória inesperada do Hopkins, Frances Mcdormand ganhou sua terceira estatueta que muitos juravam que iriam parar nas mãos de Carey Mulligan. Não vou negar: foi a maior felicidade da noite.

A atuação da Frances é um dos pontos chaves para Nomadland funcionar, e ela fez isso de uma forma extremamente natural e talentosa. Eu não sei o que se passa na cabeça de uma pessoa que desmerece essa vitória, mesmo se comparada às outras indicadas. Andra Day está fantástica em The United States vs. Billie Holliday e é ela quem sustenta essa biopic bagunçada e mal feita. A injustiçada da Vanessa Kirby dá uma alma única e delicada ao filme Pieces of a Woman. Viola Davis renasce em uma personagem que coloca todos os holofotes de A Voz Suprema do Blues em si, quando Chadwick Boseman não está na mesma cena. E chegamos na favorita da temporada: Carey Mulligan, que infelizmente é a última da minha lista de preferências nessa categoria. Não a julgo, não sei como alguém conseguiria uma atuação boa em um filme ruim como Promising Young Woman. Diante de tudo isso, meu coração pertencia a Frances e a Vanessa. Pelo menos uma delas ganhou.

Como nem só de categoria principal o homem sobrevive, os vencedores da parte técnica foram um balanço mais negativo que positivo. Bela Vingança, escrito e dirigido por Emerald Fennel, ganhou em Melhor Roteiro Original contra histórias bem formuladas, com uma proposta fiel do começo ao fim e uma finalização adequada. Minari, O Som do Silêncio e Judas e o Messias Negro (a gente finge que Os 7 de Chicago não está nessa categoria) perderam para um roteiro extremamente clichê, bagunçado, sem sentido e com um objetivo tão fraco que a gente se perde em poucos minutos do filme.

A mistura de gêneros que a Emerald tentou fazer foi mais falha do que nunca. Os aspectos de comédia misturados com o de suspense e drama deixou tudo mais longe daquilo que foi proposto no começo do filme: uma vingança aparentemente… pesada(?). Toda a construção técnica, desde o primeiro ato pesado indicando o ódio da personagem da Carey Mulligan diante a assediadores que se aproveitam de mulheres embriagadas até o momento em que a solução que a personagem decide aplicar nessa vingança é cômico de tão triste que é. Triste não pelo fato que existe essa realidade de violência contra a mulher, mas triste em como foi abordado de uma forma tão medíocre que o assunto vira palestrinha. Literalmente. A vingança da personagem é uma palestra, uma bronca, um puxão de orelha em um homem. O machismo acabou! Viva! E essa base de debate continua por todo o roteiro, sendo interrompido por um romance aleatório que cria o sentimento de culpa na personagem por tudo de “ruim” que está fazendo. Isso só acaba no final, com uma cena que vai contra tudo aquilo descrito em aproximadamente 120 páginas de roteiro. O nível gráfico que poderia ser melhor utilizado nas vinganças é usado contra a personagem. Ah, e com direito a um alívio cômico! Tudo que há de melhor para ser utilizado em uma história sobre assédio. Parabéns, Emerald.

Em Melhor Curta-Metragem de Ficção, o filme mais gráfico também venceu, dessa vez sobre racismo. Em Dois Estranhos, cenas da violência contra os negros são recriadas em uma narrativa que se baseia em criticar o racismo intríseco da polícia. O personagem revive o mesmo dia várias vezes, sempre sendo morto de uma forma diferente por um policial branco. Os remakes seguem as mortes de nomes como o de George Floyd, em que sua morte é recriada de forma bem parecida com a realidade, agora com uma qualidade HD deixando sua imagem mais gráfica que o vídeo real que circula nos meios de comunicação até hoje. O curta se segura nessa reprodução gráfica para sustentar o filme, até criando uma esperança que em algum momento role uma redimição em como o assunto está sendo discutido, mas isso não acontece. As cenas dessa chacina racista diária é utilizada apenas para chamar atenção já que os outros pontos do filme são bem mal feitos. Atuações razoáveis, uma brincadeirinha com o tempo e a jogada de câmera referente a comédias românticas só pioraram o filme. Vencedor péssimo.

Em Melhor Documentário e Curta-Metragem de Documentário, os vencedores não causaram muita diferença em mim. Em curta, meu favorito é Do Not Split que acompanha os protestos de Hong Kong em 2019, mas duvidava que fosse ganhar. De qualquer forma, Professor Polvo (Melhor Documentário) e Colette (Curta-Metragem de Documentário) foram mornos para mim. A mesma coisa aconteceu com a vitória de Mank em Fotografia e em Direção de Arte. Não consigo dizer que não merecia, apesar de ter sido 100% Nomadland nessa (e em qualquer outra categoria). Três coisas me chamaram muita atenção no filme de David Fincher, a montagem, a direção de arte e a fotografia, portanto acho que funcionou. Ao mesmo tempo, sabemos que foi apenas a Academia acalmando os nervos do Fincher.



Daniel Kaluuya, vencedor da categoria de Melhor Ator Coadjuvante por Judas e o Messias Negro.

Foto: Reprodução



Melhor Figurino e Penteado: team Pinóquio. Vitória de A Voz Suprema do Blues. Figurino: team Emma. Vitória de A Voz Suprema do Blues. Vitórias mornas também, que por mais que não concorde tanto assim, não sinto tanta necessidade de ir contra. Foram trabalhos bons, no final das contas. Já a vitória de Meu Pai em Melhor Roteiro Adaptado foi uma grande surpresa muito boa. Muito merecido, considerando que o filme consegue adaptar os palcos de teatro com o cenário cinematográfico, seja pelas mudanças de cena ou pelo controle que os personagens têm sob o roteiro. O Som do Silêncio ganhando nas categorias de Montagem e Som foram lindas e merecidas, nem precisa de justificativas aqui. Mesma coisa para as vitórias de Yoon Yeo-Jeong (Minari) e Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro) em Coadjuvante. Lindo de se ver!

E, cá entre nós, preciso realmente falar da minha felicidade com Nomadland ganhando em Melhor Filme?

No final de tudo, muitos favoritos ganharam nas categorias devidas o que resultaria, tecnicamente, em um saldo positivo, mas a estrutura da premiação e algumas vitórias atrapalharam. Exatamente o que o Oscar faz todos os anos. Isso ele nunca vai conseguir mudar.


Off: Eu te amo, Carey Mulligan. Eu tenho certeza que você vai ser indicada por um filme melhor e aí sim, eu divulgarei pro universo todo. Diz pro seu marido que o amo também e manda ele lançar alguma música nova, por favor.


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